sexta-feira, 31 de julho de 2009

Um final maravilhoso

Como qualquer escritor, imaginei que, quando chegasse a hora, eu teria um final maravilhoso para este livro — címbalos batendo, um raio de luz pura filtrando-se por entre as nuvens (você sabe) —, mas nada disso aconteceu. Falei a esse respeito com Rennie ontem à tarde, só para puxar conversa. Não esperava que ela fosse resolver o problema, mas não me ocorreu que era um problema. Assim mesmo, às três da manhã ela me acordou para dizer que nenhum final incrível lhe viera à cabeça e que nenhum final incrível lhe viria à cabeça. Enquanto me explicava isso, ela me disse que eu devia incluir Hap e C. J. na dedicatória e que esse era o primeiro de meus livros que ela realmente queria que lhe fosse dedicado (com as outras dedicatórias ela até se conformava).
Não há final nenhum neste livro, ela me disse, porque é cem por cento começo, e é claro que ela tem razão.
Mas isso significa apenas que nenhum final maravilhoso vai aparecer aqui.
O final maravilhoso está do outro lado desta página e do lado de fora da capa do livro, onde a revolução de fato vai ocorrer.
O final maravilhoso é você quem vai escrever.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

140 palavras de conselho

Você não precisa ter todas as respostas. Eu, com certeza, não tenho. Sempre é melhor dizer “Não sei” do que se enganar e se meter numa fria.

Faça as pessoas formularem suas próprias perguntas. Não assuma a responsabilidade de imaginar qual é a dificuldade delas.
Nunca tente responder a uma pergunta que você não entendeu. Peça a quem a fez que explique; se continuar insistindo até ela ficar clara, nove vezes em dez a própria pessoa vai dar a resposta.

As pessoas ouvem quando estão prontas para ouvir, não antes.
Provavelmente, um dia você não estava pronto para ouvir. Deixe as pessoas entenderem as coisas de acordo com seu ritmo. Importuná-las ou intimidá-las só vai afastá-las.
Não perca tempo com pessoas que querem discutir. Elas vão manter você imobilizado para sempre. Procure pessoas que já estão abertas para algo novo.

domingo, 26 de julho de 2009

Hã, sem milagres?

Jack e Jill passaram alguns dias com o amigo Simon em seu pequeno veleiro. Certa manhã, acordaram e descobriram que o barco estava afundando.
“Que diabos vamos fazer?”, perguntou Jill.
“Não se preocupe”, disse Jack. “Simon é muito engenhoso”.
Simon chamou-os:
“Vamos lá, temos de abandonar o barco”.
Jill ficou alarmada, mas Jack tranqüilizou-a dizendo que Simon não ia deixá-los numa pior.
“Estamos a apenas cem metros da praia”, disse Simon. “Vamos embora!”
“Mas como vamos nos salvar?”, queria saber o casal.
“Vamos nadar, óbvio!”
Vendo o ar de decepção de Jack, Simon perguntou o que havia de errado.
Jack respondeu:
“Eu esperava que você fosse encontrar um jeito de nos levar diretamente até a praia, sem termos de nos molhar”.

Um dos meus primeiros leitores mostrou a mesma decepção comigo. Esperava que eu conseguisse encontrar uma forma de nos levar diretamente para a nossa nova terra natal econômica sem ter de “se molhar” na economia dos conquistadores que nos circundam. A Nova Economia Tribal (que, na melhor das hipóteses, só consigo imaginar vagamente) é a terra seca à nossa frente. Alcançá-la enquanto nos mantemos desdenhosamente distantes da economia à nossa volta faria que caminhar sobre as águas parecesse um milagre bem insignificante.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

O começo não é o fim

Além da civilização não é um espaço geográfico de algum lugar bem alto das montanhas, nem de uma remota ilha deserta. É um espaço cultural que se abre entre pessoas de cabeça nova.

As cabeças velhas pensam:
Como resolver esses problemas?

As cabeças novas pensam:
Como podemos fazer acontecer o
que queremos que aconteça?

Ao discutir as idéias encontradas neste livro com seus amigos, você vai conseguir identificar facilmente as cabeças velhas. São as que estão sempre “fazendo o papel de advogado do diabo”, sempre apontando as dificuldades, concentrando-se nelas, sempre pontuando o progresso de seu diálogo com problemas. Concentre-se, ao invés disso, no que você gostaria que acontecesse, e como fazer isso acontecer, em vez de em todas as coisas que podem impedir isso de acontecer.

Acredite se quiser: uma pessoa de carne e osso disse-me certa vez: “Sim, mas não vamos continuar pagando impostos?” Sim, e você ainda vai prender seu cachorro e obedecer ao limite de velocidade, e tirar a neve das calçadas quando ela cair. E ainda vai ser uma boa idéia chegar ao aeroporto alguns minutos antes do horário do seu vôo.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Faça daquele jeito!

Uma outra pessoa pode vir com esta aqui: “Mas o senhor não está dizendo de fato, sr. Quinn, que não ter só uma forma certa de viver é a única forma certa de viver?”
Não, não estou dizendo isso, porque isso é apenas uma conversa mole sem sentido. Não ter só uma forma certa de viver não é um modo de viver, assim como não haver só uma forma certa de cozinhar um ovo não é uma forma de cozinhar um ovo.
Saber que não existe só uma forma certa de viver não lhe dirá como viver, assim como saber que não existe uma hora certa de ir para a cama não lhe dirá quando ir para a cama.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Faça desse jeito!

Mas essas palavras não serão ouvidas sem que um sabichão se lembre de perguntar: “Mas o senhor não está dizendo, sr. Quinn, que o modo tribal é o modo certo de as pessoas viverem?”
Não estou dizendo nada desse gênero. Como já afirmei, os presentes da seleção natural não são perfeitos (e muito menos “certos”), mas é muito difícil melhorá-los. O modo tribal não é o modo certo, mas apenas um modo que funcionou durante milhões de anos, ao contrário do modo hierárquico, que nos deixou cara a cara com a extinção depois de apenas dez mil anos.
Tanto quanto sei, o modo tribal pode, no futuro, ser suplantado por outro que funcione melhor para nós em circunstâncias que, obviamente, serão muito diferentes daquelas do passado. Na verdade, não é exatamente o que estou propondo nestas páginas? Afinal de contas, não estou sugerindo um retorno ao modo tribal tal como foi conhecido aqui durante os três primeiros milhões de anos da vida humana — nem como ainda é conhecido entre os povos aborígines que sobreviveram. O tribalismo étnico à moda antiga está, para o futuro que podemos prever, completamente fora de nosso alcance.
O tribalismo da Nova Revolução Tribal não é proposto como um fim, como algo certo e ao qual devemos nos apegar a todo o custo — é proposto como um início, num momento que temos de nos lançar num novo começo ou aceitar a idéia de juntar-nos aos dinossauros num futuro muito próximo.

sábado, 18 de julho de 2009

Não existe apenas uma forma certa

Depois que você reconhece isso, fica absolutamente claro que essa é a história que foi vivida aqui durante os três ou quatro primeiros milhões de anos da vida humana. É evidente que há uma sensação intensa de que o nosso é apenas um caso especial de uma história muito maior, escrita na própria comunidade dos seres vivos desde o começo, há uns cinco bilhões de anos: Não existe uma forma certa de viver para NENHUM SER VIVO.

Não existe apenas uma forma certa de articular uma mandíbula.
Não existe apenas uma forma certa de construir um ninho.
Não existe apenas uma forma certa de desenhar um olho.
Não existe apenas uma forma certa de movimentar-se embaixo d’água.
Não existe apenas uma forma certa de reproduzir-se.
Não existe apenas uma forma certa de criar filhos.
Não existe apenas uma forma certa de modelar uma asa.
Não existe apenas uma forma certa de atacar uma presa.
Não existe apenas uma forma certa de defender-se de ataques.

Foi assim que os seres humanos vieram de lá até aqui, vivendo essa história, e as coisas deram sensacionalmente certo até dez mil anos atrás, quando a nossa cultura muito esquisita nasceu obcecada pela idéia de que existe uma única forma certa de as pessoas viverem — e, na verdade, uma única forma certa de fazer praticamente qualquer coisa.