sexta-feira, 3 de julho de 2009

Por que o que temos não é durável

É um princípio fundamental de nossa mitologia cultural que a única coisa errada conosco é que os seres humanos não são suficientemente bem feitos. Precisamos ser feitos com materiais melhores, com um conjunto de especificações melhores (criados, talvez, pelas versões ecológicas de nossas religiões tradicionais). Só precisamos ter mais bondade, gentileza, carinho, amor; menos egoísmo, mais visão, e assim por diante, e aí, então, tudo vai ser ótimo. É claro que ninguém conseguiu nos melhorar no ano passado, nem no anterior, nem no outro antes deste, nem no anterior a este último — aliás, em ano nenhum da história documentada —, mas talvez este ano a gente tenha sorte... ou talvez o próximo, ou o outro depois dele.
O que tentei dizer em todos os meus livros é que o defeito da nossa civilização não está nas pessoas, mas no sistema. É verdade que o sistema tem feito um barulhão nos últimos dez mil anos, que é um tempo bem longo segundo a escala de uma vida individual, mas, visto segundo a escala da história humana, esse episódio não é notável por sua duração épica, mas por sua trágica brevidade.
Em Ismael, comparo o nosso aparato civilizatório a um avião que está no ar há dez mil anos — mas em queda livre, não em vôo. Se ficarmos dentro dele, vamos nos espatifar com ele, e logo. No entanto, se a maioria de nós diminuir sua carga abandonando-o, ele talvez consiga manter-se no ar durante muito tempo (enquanto o resto de nós tenta alguma coisa que faça mais sentido).

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